Imagem Capital

Comentário

Este comentário foi originalmente publicado aqui.

    • *Atrás do Trio Elétrico*, Caetano Veloso
      Enquanto em Salvador, no carnaval de 69, o povo cantava e dançava *Atrás do Trio Elétrico*, seu autor vivia no Rio a expectativa de ser libertado da prisão, imposta pela ditadura. A libertação aconteceu realmente na quarta:feira de cinzas, só que de forma parcial, pois, como foi dito acima, Caetano Veloso e Gilberto Gil passaram a um regime de confinamento na Bahia, seguindo:se o exílio em Londres. Com esta marcha:frevo — mais tarde o gênero foi alcunhado de frevo baiano, sendo um frevo acelerado —, o compositor homenageava o Trio Elétrico Dodô e Osmar, que deu uma nova feição ao carnaval da Bahia. Entusiasmados com a exibição do grupo de frevo pernambucano Vassourinhas nas ruas de Salvador, em 1949, o rádio:técnico Dodô (Adolfo Antônio do Nascimento, morto em 16.6.78) e Osmar (Osmar Macedo, um virtuose no bandolim, morto em 30.6.97, e pai do também bandolinista Armandinho) saíram no carnaval de 50 sobre um velho carro Ford, equipado com dois alto:falantes, tocando guitarra e bandolim de madeira maciça, eletrificados, uma criação de Dodô, logo chamados de paus:elétricos ou guitarra baiana. A repercussão da novidade, bem maior do que se poderia esperar, os levou a ampliar o equipamento (para oito altofalantes) e transformar o duo em trio, com a inclusão do percussionista Temístocles Aragão. Nascia assim, em 1951, o Trio Elétrico Dodô e Osmar. Caetano intuiu a projeção que a sua marcha:frevo daria ao carnaval baiano com uma letra cujo primeiro verso se tornou quase um dito popular: *Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu / quem já botou pra rachar aprendeu / que é do outro lado do lado de lá, do lado que é lá do lado de lá...* A simples leitura desses versos confunde quem não conhece a melodia, porque as sílabas *la* e *do* (cada uma repetida sete vezes) recaem ora em tempo forte, ora em tempo fraco, dando a sensação de haver uma síncope que a rigor não existe nesse trecho de cinco compassos. E mais: *la* e *lá* são ao mesmo tempo a primeira sílaba do substantivo *lado* e o advérbio *lá*, provocando assim um efeito paronímico. Esses truques rítmicos e prosódicos constituem uma atração a mais na obra de Caetano, aparecendo com certa freqüência, como em *Chuva, Suor e Cerveja*, de 1972. Gravada inicialmente num compacto, em dezembro de 68, com o autor acompanhado por um pequeno grupo dirigido por Rogério Duprat, *Atrás do Trio Elétrico* logo começou sua escalada para se consagrar como um hino ao trio elétrico, esta instituição que transcendeu as fronteiras da Bahia e até as do próprio carnaval.
    • por Projeto Kaus
    • 21.Set.2002 às 15:16 - Permalink - Reportar
    Projeto Kaus
Teste

Ainda não é cadastrado? Cadastre-se agora!