Em uma de muitas andanças pelas ruas de São Paulo fui abordado por um homem de mais ou menos uns 30 anos que vestia um colete que o identificava como vendedor de uma “Ocas”. A simplicidade do sujeito me emocionou. De um português precário saíam argumentos para convencer este desempregado a comprar a tal da “Ocas”. “Ocas” é o nome de uma revista publicada pela Organização Civil de Assistência Social, vendida apenas por moradores de rua desta metrópole, que compram a revista por 50 centavos e a vendem por R$ 2.
Para quem quiser ler a Declaração de Princípios publicada na edição de nº 1, aí vai:
“No Brasil, 68 milhões de pessoas vivem com menos de 90 centavos por dia. Se isso já não é a própria escravidão, continuam aparecendo pelo país casos da forma tradicional em pleno século XXI. A distribuição de renda nacional é uma das piores do mundo, 1% da população fica com 50% da renda no Brasil.O último censo brasileiro, realizado em 2000, constatou que 80% da população mora em áreas urbanas. Mas este universo não inclui todos os moradores das cidades do país. Em seu recenseamento, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística não entrevistou aqueles que vivem nas ruas, por causa da mobilidade dessas pessoas.
Elas participam intensamente, no entanto, da economia do Brasil, em sua luta diária pela sobrevivência. Só nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, são mais de 20 mil nas ruas e das ruas. E as pesquisas demostram que a maioria está em idade produtiva, com escolaridade média de 4 anos. Apesar disso, apenas a face da criminalidade e da violência costuma ser lembrada ao se retratar a população excluída.
É neste cenário que nasce a Organização Civil de Ação Social, uma sociedade civil sem fins lucrativos com o objetivo de fornecer instrumentos de auto-valorização para as populações sem moradia ou que vivem em condições precárias, criando condições para que o indivíduo se torne o seu próprio agente de transformação.
O principal instrumento de organização é a revista “Ocas”, vendida apenas por moradores de rua, esquecidos ou como se prefira chamar todos aqueles que não foram incluídos no perfil matemático da população brasileira. Assim, obterão uma fonte de renda legítima que lhes permita melhores condições de vida. Um trabalho digno e com pagamento imediato. A interação decorrente da compra/venda da revista permite que esses excluídos tenham oportunidades de se comunicar, dando novos passos de integração social.
Nesse caminho, dividimos anseios e objetivos com empresas e instituições parceiras. A “Ocas” conta com o apoio, a confiança e o patrocínio da M. Officer, que viabiliza economicamente a produção integral dos dois primeiros números desta revista e que partilha da crença de que uma oportunidade de trabalho é uma mudança concreta na vida das pessoas que estão nas ruas. Assim como entidades como Rede Rua, Médicos Sem Fronteiras e British Council, incentivadoras da luta pela justiça social.
Os objetivos da “Ocas” ultrapassam a geração de renda. Através de uma rede de cooperação, a organização busca parcerias para prestação de serviços habituais, educacionais e de saúde, entre outros, aos participantes do projeto.”
Publicado em 21 de novembro de 2002 às 00:50 por fabricio